segunda-feira, 1 de março de 2010

Informados, Fanáticos, Share Holders e a "Avó dum gajo"!

A carta de condução. Tornar um indivíduo apto para a prática da condução de um veículo motorizado. O condutor, além da própria, pode afectar a vida de outros com as suas acções, não sendo senão justo e responsável, formá-lo. Toda a gente tem o direito a conduzir um veículo motorizado, podemos até dizer que conduzir é um direito universal, desde que se cumpra o respectivo dever de aprender como o fazer de forma informada. Alguém se lembra de mais algum direito que se não for exercido de forma responsável e informada pode afectar a vida de muitas outras pessoas? E que tal o direito ao voto?
Aqui gostava de enunciar a minha classificação de votantes: informados, fanáticos, share holders e do tipo “avó dum gajo”.
O votante informado, espécie rara em Portugal, conhece a estrutura da nossa democracia, as suas instituições, figuras e procedimentos. Tem noção das diferentes ideologias politicas, conhecimentos (ainda que elementares) de direito e economia. Na proximidade de eleições, estuda propostas, avalia caracteres, toma conhecimento da totalidade das listas de candidatos e prepara cuidadosamente a sua escolha.
O fanático vê um acto eleitoral como quem vê um derby Sporting – Benfica, pouco lhe importa quem são os jogadores, ou qual vai ser a táctica desde que o lado dele ganhe. A satisfação de gozar, no café, com os companheiros de outra facção, entre dois golinhos na sua mini, é mais do que suficiente.
Outro bastante comum é o votante share holder, com interesses investidos, este votante nem hesita, quer seja um militante ambicioso ou alguém refém do seu empregador (este segundo caso muito comum na administração local), o share holder vota como que quem envia um currículo.
Para finalizar, toda a gente sabe que a “avó dum gajo” tem muito bom coração mas não percebe patavina de politica!


A comparação entre votar e conduzir é redutora, mas já me senti muitas vezes “atropelado” ao dialogar com pessoas que não faziam a mais pequena ideia do que estavam a fazer.


Já falei, aqui no blog, da minha convicção de que se deveria criar uma cadeira de educação cívica, bem construída e que acompanharia o estudante durante TODO o seu percurso escolar. Defendo agora que nos últimos dois anos, a cadeira versasse sobre politica, conceitos básicos de economia e direito e instituições que compõe a nossa democracia. Uma vez que, actualmente, a escolaridade obrigatória só termina no 12º ano, TODA a gente teria acesso a esta formação que proponho. No final do 12º ano, como em qualquer outra cadeira, o aluno seria posto a prova com um exame final e a recompensa de uma nota positiva seria o cartão de eleitor (obviamente sem prejuízo para qualquer pessoa que já fosse eleitor anteriormente)! Pode ser polémico, mas evitava que muita gente andasse por aí a acelerar e a votar “que nem um doido”!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Rouba mas tem obra feita!

Gostava de iniciar este post com uma citação de um grande homem: “It takes two to lie. One to lie and one to listen.”. Que quero eu dizer com isto? Que para um governante (e é obvio que me refiro ao nosso pouco sério, desonesto e mau carácter primeiro ministro) conseguir arrastar um pais na lama, por um período superior a quatro anos, necessita de um povo que não se importe de chafurdar. Alberto João Jardim, figura burlesca e uma quase caricatural representação de um governante, surpreendeu-me há uns dias com uma frase acertadíssima: “Cada país só tem os governantes que merece”. O nosso sentido moral è esguio e escorregadio, o Português (e se alguém me disser que não são todos, merece uma salva de palmas) não condena a corrupção com a veemência que seria de desejar, frases como “rouba mas ao menos vê-se serviço feito” são ouvidas com frequência, dando a entender que o governante trabalhador merece um bónus na forma de dinheiro pouco claro. Esta mentalidade de quem elege, aliada a um sistema de justiça cada vez mais minado e construído por aqueles que o desejam controlável, criam um ambiente de total impunidade. Não havendo consequências legais ou sequer eleitorais e tendo em conta a natureza da maioria das pessoas, o que impede o roubo, a corrupção ou a compra de cursos de engenharia? NADA. A meu ver, a solução deste problema tem que estar dividida em curto e longo prazo. No curto prazo passa por uma justiça que eficaz, com total independência do estado (e.g. nomeados, pelo estado, para o Conselho Superior de Magistratura ou para director do C.E.J.?!) e com mais meios de investigação, possa enforce a consequência legal no imediato. No longo prazo (e este passo é claramente de difícil execução), dar maior preponderância, na educação dos alunos, à formação cívica (tornando-a qualquer coisa de importante e não a anedota que é hoje em dia), que na minha opinião deveria acompanhar o estudante durante todo o seu percurso escolar. Assim, no longo prazo, e através de uma mudança gradual de mentalidades, atingiríamos o ponto em que passaria também a existir a consequência eleitoral. Com isto não quero dizer que a culpa é totalmente de um povo desprovido de princípios, ser um bandido é claramente pior do que desculpabilizar um. Mas parece-me mais fácil controlar, em conjunto, enquanto povo “vertical”, a corja do que convencê-la a mudar de vida.


Para terminar, a citação com que comecei o post é de Homer Simpson, vejam bem. Até um boneco amarelo, que passa os dias a beber cerveja, está uns anitos à nossa frente!

Preferiti - O Social Companheirismo

Ontem acordei, abri os olhos e pensei "Que país corrupto onde vivo, em que a classe politica atingiu o ponto mais baixo de sempre, nunca vi o meu Portugal assim...". Semanalmente somos bombardeados com novidades sobre casos de favorecimentos e tráfico de influências, "cunhas" para todos os gostos. Uma mão lava a outra... chega mesmo a ser uma lavagem de corpo inteiro em que se colocam autênticos inergúmenos em cargos de responsabilidade. Provavelmente nem serviriam para nos servir um café, pois certamente se iriam enganar e trazer um bolo de arroz.
Será esta uma nova e dura realidade que temos de atravessar? Pior que o cego é aquele que não vê, e a minha frase anterior é falaciosa. A corrupção não é uma "moda" que surgiu agora, já existe à muito tempo e pertence "to the very fabric of our society", a única diferença é que o projeccionista ligou o filme e nós estamos todos com pipocas em riste a ver na primeira fila.
Mais do que da falta de produtividade (tema sobre o qual me debruçarei noutro dia), nós sofremos de uma dormência de pensamento e interesse sobre a vida pública que faz as pedras da calçada corar. "Aqueles ricos pá sempre a enganar o Zé povinho" , "Aquilo é só filhos e enteados, uma vergonha, jobs for the "boys" , "Não vou votar, porque nenhum é bom"... são algumas expressões que estou habituado a ouvir de várias pessoas de diferentes estratos sociais. Sejamos honestos, o que fazemos para mudar o paradigma? Limitamo-nos a abrir o jornal, comentar a noticia, damos mais 4 anos ao governo para continuar, bebemos o leite da meia noite e vamos dormir. Não me quero alongar mais sobre o que penso da classe politica neste momento pois será assunto para outra discussão, o enfoque deste meu comentário é apenas sobre os favorecimentos e as redes de influências.
Claro que nós seres perfeitos e imaculados podemos dizer com todas as letras que tudo o que se anda a passar é uma vergonha. Nenhum de nós foi favorecido em qualquer situação só pelo facto de pessoa A, B ou C gostar mais de nós do que do vizinho do lado certo? Pois talvez não seja bem assim, mas é um facto que seja dentro da esfera política, do tecido empresarial privado ou mesmo dentro de um grupo de amigos são feitas decisões por vezes com base em preferências. A grande diferença entre estes exemplos é o grau de responsabilidade e o impacto que tem não nas nossas vidas mas nas vidas dos que nos rodeiam. Se eu quiser deixar de falar a um amigo deixo, se quiser sair da minha empresa saio, mas o que faço eu com o meu País que é governado por corruptos para corruptos? Desenganem-se se pensam que uma mera maquilhagem de ministros vai modificar por completo a situação actual. Desde muita tenra idade, já da altura das Juventudes políticas que se cultiva o "Social companheirismo". A lógica é piramidal, primeiro subo eu depois subo-te a ti e tu sobes o outro... e assim sucessivamente. Como cortar essa lógica? Colocar pessoas que realmente tenham valências para os cargos, pelo que sabem e não pelo que dizem que sabem. Não se coloca um canalizador a fazer uma cirurgia que pode salvar a vida de uma pessoa, como também não se pode colocar um especialista em sanitários para governar um país. A incompetência não existe, cria-se quando colocamos as pessoas erradas nos cargos errados, e o Social Companheirismo vem provar isso.

Tautologia Lusitana

Não querendo, caros leitores, incorrer em sobranceria e prentensiosismo, deixo já uma declaração de princípio: Não pretendo imiscuir-me no campo de actividade de tão doutos sábios, esses "cientistas sociais" que se limitam a colar etiquetas e a dar nomes pomposos a factos que são por demais evidentes ao mais inculto dos intelectualmente indigentes.

Tendo este ponto como assente, e ressalvando a minha ignorância cientifica, queria passar a contar uma história que aconteceu com duas pessoas que conheço, que conheço bem aliás.

Dois amigos decidem ir dar uma volta à noite, um hábito comum e reiterado, como habitualmente se designa por "ir sair à noite" ou "beber um copo".
Vão a um bar, de seguida a uma discoteca onde encontram outros amigos, todos se divertem (na medida do possível) e, inevitavelmente, é hora de voltar.
Os dois amigos não estão claramente em condições de conduzir, sendo que um tem muito mais experiência automobilística e voluntaria-se para o fazer. O outro acata a sugestão e juntos seguem caminho para casa, para uma repousada e ronceira noite de sono.

Eis que não quando, e qual Lei de Murphy, uma das piores soluções ou desfechos para essa noite acontece: são mandados parar numa "Operação STOP".
Aqui nos perguntamos: "Mas será que não era expectável que assim o fosse? Será que foi ajuizado conduzir correndo o risco de ser apanhado pela policia ou maxime poder injuriar fisicamente alguém?". Não resta mais do que dizer sim a ambas as perguntas, ressalvando-se contudo o desfecho da história, que apesar de não fazer sentido num Estado de Direito Democrático serviu a estes dois jovens de lição... mas pelas piores razões possíveis.

Retomando então a história, encontram-se os dois amigos na dita operação policial. Long story short um deles, o condutor, é levado para a esquadra a fim de proceder à despistagem quantitativa da alcoolemia . O outro, que tinha ficado no carro, com o passar do tempo indaga-se do paradeiro do seu amigo e da sua estranha delonga. Sem mais decide ir procura-lo.
Quando chega à porta da esquadra assiste a uma, aparentemente calma, troca de argumentos que num ápice descamba num jogo de insultos e culmina em actos de agressão por parte dos agentes da autoridade. Esse amigo que havia chegado recentemente tenta, incrédulo, socorrer o outro que estava no chão a ser agredido por aqueles que supostamente nos deviam proteger de agressões. Tudo isto se processa e os amigos vêm-se notificados e sediados num processo dum crime que não cometeram, o de agredir policias à porta duma esquadra, veja-se.

Poderíamos pensar que se trata de dois amigos problemáticos, com um passado difícil e carente de educação e de valores. Mas não, são dois estudantes universitários que partilham dos mesmos valores e da mesma maneira de encarar a vida, e que, sabem os seus limites democráticos e sociais.

Esta história para mais não serve do que para evidenciar a redundância e a repetição que é a sociedade portuguesa.
Os agentes policiais, sem prejuízo dos bons agentes, são em regra pessoas que por força das circunstâncias, ou por falta delas, seguiram essa carreira. A mais não se lhes pede do que respeito aos cidadãos, aos mais bem sucedidos e aos menos bem sucedidos.
Não esperamos que sejam todos putativos vencedores de prémios Nobel nem astrofísicos licenciados no M.I.T., mas era de bom tom que no mínimo percebem-se que estão munidos de armas quando falam com cidadãos que não estão sequer ao mesmo nivel em termos de preparação fisica ou seja o que for.
E isto é assim e há de ser sempre assim, infelizmente. Há falta de educação em Portugal, cívica e técnica, e para se perceber isso basta sintonizar a AR Tv e observar isso mesmo durante 5 minutos. Se no orgão de soberania máximo que é a Assembleia da Républica é assim, imagine-se nos peões da democracia que são os polícias.

"O homem é um animal gregário" dizia Aristóteles. Pois bem, deve haver muita gente que não quer fazer parte desta sociedade, onde a insegurança é avassaladora a todos os níveis. Desde a base (a policia) até ao garante máximo da liberdade e da igualdade dos cidadãos (os tribunais).

E assim, por este e por outros exemplos, chegamos a uma tautologia muito portuguesa...

"Portugal está um caos"

"On" Ministério da Agricultura

Antes de iniciar este post gostava de dizer que sou agricultor, tenho uma empresa que além de ser produtora de frutos secos, também compra e revende os mesmos. O aumento das encomendas fez com que eu tivesse necessidade de procurar novos fornecedores, produtores nacionais, com frutos secos de qualidade, que eu posteriormente embalaria para exportar. Em conversa com um amigo, também agricultor, espanhol, expliquei-lhe a dificuldade que tinha, em descobrir produtores, e ele respondeu: “nós em Espanha recorremos ao ministério da agricultura, eles têm gabinetes de apoio que fornecem listagens de produtores, ajudam á comercialização e à promoção de produtos espanhóis”. Fazia todo o sentido! Finalmente qualquer coisa em que o Ministério da Agricultura podia ajudar os agricultores (aparte da sua função de mau mediador de fundos comunitários)! Peguei no telefone, papel, caneta e preparei-me para ver, incrédulo, o meu querido ministério ser-me útil. “Estou? Bom dia! Podia me fornecer uma listagem de produtores de frutos secos?” pensei em mencionar as exportações, sempre em voga e prioridade para qualquer governo, “tenho uma empresa de exportações de produtos alimentares nacionais…”, resposta, “ohhh, isso não é aqui…”, desgraça!, “… é com o Gabinete de Planeamento e Políticas”. Lá estava eu a ser injusto, a pensar que ia dar ao beco sem saída do costume e na verdade “os homens” até tinham um gabinete só para o meu assunto! A senhora prosseguiu: “Isso é com a Sra. Eng. ******** ****, mas ela hoje não está”. Liguei no dia seguinte e consegui “apanhar” a tal Sra. Eng. que me informou que existia uma colega dela só para a fruta, uma especialista, e que eu tinha que enviar o pedido por e-mail. Que maravilha! Não só existe um gabinete que estuda mercados e promove produtos nacionais, como o seu nível de especialização vai ao ponto de existir uma funcionária só para a fruta! Coloquei o meu pedido por e-mail e fiquei à espera. No dia seguinte vou ver os meus e-mails e qual não é o meu espanto quando vejo o seguinte e-mail:


“Srº João Courinha

Nós não temos uma listagem de produtores de frutos secos e secados.
Podemos fornecer o nome de uma Associação Nacional de Produtos Secos e Passados, em Torres Novas, cujo contacto é 249 812 910. A morada é no Largo do Passos, 2350-428
O email é o seguinte: frutossecos@netc.pt

Qualquer dúvida diga.
Cumprimentos”


A especialista só tinha UM contacto… O gabinete de Planeamento e mais não sei o quê remete-me para UMA Associação. Os responsáveis pelos estudos de mercados agrícolas e a sua distinta “perita” em mercados de fruta, só conhecem UM contacto no que toca a produtores de frutos secos. Lá se foi o meu sonho de me servir do Ministério. Talvez o leitor esteja a pensar: “esse tipo de lista pode ser difícil de elaborar, não existir informação”, ao que eu respondo que provavelmente seria da competência, de um gabinete do género, fazer a investigação necessária. Não ficou satisfeito leitor? Então e se eu lhe disse que os frutos secos recebem uma ajuda anual à superfície? E que cada produtor entrega anualmente, com a devida informação acerca do mesmo, no IFAP (instituto dependente do ministério!!), um formulário com a área de variedade de cada fruto seco? Nós fazemos a lista! Eles só precisavam de a compilar e nem isso fazem…

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Juventudes Partidárias - A sementinha do clientelismo

Um dia, nos corredores da escola, um grande amigo meu, abordou-me com um convite aliciante: “Queres-te inscrever na JSD?”. Aceitei imediatamente! Com quinze anos, pertencer a uma comunidade, é algo de importantíssimo! Passada a excitação inicial, pensei em qual seria o meu papel dentro da organização, o que seria esperado de mim? Inquiri o meu amigo nesse sentido e ele, já familiarizado com o funcionamento da “estrutura”, respondeu: “bem, o mais importante é fazer militantes, convencer mais gente a pertencer à nossa secção para ganharmos as eleições.”. Naquela altura, ganhar as eleições, significava ter acesso à sala da JSD, no interior da secção do partido, e conseguir vagas, com maior facilidade, no campo de futebol da junta de freguesia (PSD); era a nossa “cenoura”, a nossa fortuna! Pusemos mãos à obra! Quando começámos a frequentar a secção ninguém nos ligava nenhuma, depois fizemos vinte militantes, o interesse cresceu, cinquenta militantes, tínhamos que ser tidos em conta, oitenta militantes, começaram os telefonemas dos “adultos” do partido, cem militantes, ganhámos a secção da “J”. Que alegria! Uma sala só para nós! Um bar que iria financiar as despesas de fazer mais militantes! Jogos de futebol com fartura! Próximo passo: Distrital de Lisboa!
Gostaria de interromper a narrativa para explicar como quatro ou cinco rapazes de tenra idade conseguiram fazer mais de cem militantes num mês: Scanner portátil da HP, o melhor amigo do “aparelhista” iniciado. Fazer alguém militante era um processo que exigia o preenchimento de uma ficha e uma cópia do bilhete de identidade, nenhum jovem se prestaria a essa árdua tarefa! É aqui que entra o fantástico scanner portátil, o “nosso” militante apenas assinava a ficha, escrevia o seu contacto telefónico (para quando fosse necessário levá-lo a votar) e nos “scannávamos” o seu B.I. (o scanner tinha memória para gravar mais de cem). Inventivo, não acham? Por esta altura, o leitor mais atento e conhecedor, deve estar a pensar: “como é que levavam militantes tão desinteressados, que nem se dariam ao trabalho de preencher uma ficha, a pagar as cotas obrigatórias, para que pudesse votar?”. Neste capítulo entravam os graúdos! Sempre que existiam eleições para a secção do partido ou para a distrital (também do partido), a “facção” que nós apoiávamos, tinha todo o prazer em pagar as cotas, em massa, de todos os nossos militantes, para que pudessem votar neles!
Retomando a narrativa do nosso percurso dentro da JSD, depois de conquistar a secção era altura de passar a frequentar as reuniões da distrital e as reuniões (de carácter mais privado) das “facções” (cada uma composta por diversas secções) que pretendiam ganhar a distrital. Aqui já era mais a sério! Já não se sonhava com jogos no campo de futebol da junta, mas com lugares e nomeações! Deputado, vereador ou assessor eram moeda de troca e aliciante utilizado em busca desta ou aquela secção que daria a vitória nas próximas eleições. O que deveria ser um lugar de troca de ideias e ideais, onde se formariam politicamente as pessoas que num futuro, mais ou menos próximo, iriam contribuir para a boa governação do nosso país, rapidamente se me apresentou como um bafon, da pior espécie, uma espécie de centro de emprego para oportunistas. Aqui impera o número de militantes, qualquer imbecil com uma mala carregada de fichas prontas a entregar se sobrepõe ao indivíduo trabalhador e ansioso por participar um projecto válido. Muitas vezes ouvi a triste frase: “com mil militantes eras deputado”.
Que ninguém tenha a veleidade de utilizar a minha história como um relato exclusivamente aplicável à JSD ou ao PSD, conheci pessoas de todas as juventudes e todos os partidos durante esses anos e, perdoem-me a frontalidade mas, só mudam as moscas…


Pouco tempo depois, eu e os meus amigos, começámos a frequentar cada vez menos estas reuniões, desiludidos e até enojados. Como se pode esperar que um politico profissional, que sempre viveu o sistema e no sistema, entenda isto? Como combater uma estrutura tão cristalizada, em que estar no topo nada tem a ver com mérito intelectual ou capacidade para intervir positivamente no país? Aqui nasce o bichinho da negociata, esta é a sementinha do clientelismo.