sábado, 27 de fevereiro de 2010

Juventudes Partidárias - A sementinha do clientelismo

Um dia, nos corredores da escola, um grande amigo meu, abordou-me com um convite aliciante: “Queres-te inscrever na JSD?”. Aceitei imediatamente! Com quinze anos, pertencer a uma comunidade, é algo de importantíssimo! Passada a excitação inicial, pensei em qual seria o meu papel dentro da organização, o que seria esperado de mim? Inquiri o meu amigo nesse sentido e ele, já familiarizado com o funcionamento da “estrutura”, respondeu: “bem, o mais importante é fazer militantes, convencer mais gente a pertencer à nossa secção para ganharmos as eleições.”. Naquela altura, ganhar as eleições, significava ter acesso à sala da JSD, no interior da secção do partido, e conseguir vagas, com maior facilidade, no campo de futebol da junta de freguesia (PSD); era a nossa “cenoura”, a nossa fortuna! Pusemos mãos à obra! Quando começámos a frequentar a secção ninguém nos ligava nenhuma, depois fizemos vinte militantes, o interesse cresceu, cinquenta militantes, tínhamos que ser tidos em conta, oitenta militantes, começaram os telefonemas dos “adultos” do partido, cem militantes, ganhámos a secção da “J”. Que alegria! Uma sala só para nós! Um bar que iria financiar as despesas de fazer mais militantes! Jogos de futebol com fartura! Próximo passo: Distrital de Lisboa!
Gostaria de interromper a narrativa para explicar como quatro ou cinco rapazes de tenra idade conseguiram fazer mais de cem militantes num mês: Scanner portátil da HP, o melhor amigo do “aparelhista” iniciado. Fazer alguém militante era um processo que exigia o preenchimento de uma ficha e uma cópia do bilhete de identidade, nenhum jovem se prestaria a essa árdua tarefa! É aqui que entra o fantástico scanner portátil, o “nosso” militante apenas assinava a ficha, escrevia o seu contacto telefónico (para quando fosse necessário levá-lo a votar) e nos “scannávamos” o seu B.I. (o scanner tinha memória para gravar mais de cem). Inventivo, não acham? Por esta altura, o leitor mais atento e conhecedor, deve estar a pensar: “como é que levavam militantes tão desinteressados, que nem se dariam ao trabalho de preencher uma ficha, a pagar as cotas obrigatórias, para que pudesse votar?”. Neste capítulo entravam os graúdos! Sempre que existiam eleições para a secção do partido ou para a distrital (também do partido), a “facção” que nós apoiávamos, tinha todo o prazer em pagar as cotas, em massa, de todos os nossos militantes, para que pudessem votar neles!
Retomando a narrativa do nosso percurso dentro da JSD, depois de conquistar a secção era altura de passar a frequentar as reuniões da distrital e as reuniões (de carácter mais privado) das “facções” (cada uma composta por diversas secções) que pretendiam ganhar a distrital. Aqui já era mais a sério! Já não se sonhava com jogos no campo de futebol da junta, mas com lugares e nomeações! Deputado, vereador ou assessor eram moeda de troca e aliciante utilizado em busca desta ou aquela secção que daria a vitória nas próximas eleições. O que deveria ser um lugar de troca de ideias e ideais, onde se formariam politicamente as pessoas que num futuro, mais ou menos próximo, iriam contribuir para a boa governação do nosso país, rapidamente se me apresentou como um bafon, da pior espécie, uma espécie de centro de emprego para oportunistas. Aqui impera o número de militantes, qualquer imbecil com uma mala carregada de fichas prontas a entregar se sobrepõe ao indivíduo trabalhador e ansioso por participar um projecto válido. Muitas vezes ouvi a triste frase: “com mil militantes eras deputado”.
Que ninguém tenha a veleidade de utilizar a minha história como um relato exclusivamente aplicável à JSD ou ao PSD, conheci pessoas de todas as juventudes e todos os partidos durante esses anos e, perdoem-me a frontalidade mas, só mudam as moscas…


Pouco tempo depois, eu e os meus amigos, começámos a frequentar cada vez menos estas reuniões, desiludidos e até enojados. Como se pode esperar que um politico profissional, que sempre viveu o sistema e no sistema, entenda isto? Como combater uma estrutura tão cristalizada, em que estar no topo nada tem a ver com mérito intelectual ou capacidade para intervir positivamente no país? Aqui nasce o bichinho da negociata, esta é a sementinha do clientelismo.

1 comentário:

  1. Fiz parte deste grupo que por amizade a um outro amigo se viu envolvido no seio de gente que não merecia sequer o nó da gravata que usava. E são estes espectros que habitam mais tarde as cadeiras do poder, este pessoal vazio de conteúdo e sem o minimo de amor à "res publica".

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